VERDADES E MENTIRAS

Verdades e mentiras se confundem nas sombras das fachadas pseudo-modernistas ou caipiro-globalizadas dessa nossa aldeia.


O modernismo é com certeza o grande momento poético da arquitetura do século passado. Sua genética estética e espacial resiste ao tempo gerando filhos ora legítimos ora bastardos, expondo a sua arquitetura à releituras algumas vezes relevantes, mas freqüentemente a equívocos gritantes, pois em qualquer área o mau gosto e a desinformação são sempre os vendedores mais eficientes.


Ao olhar descuidado ou leigo essas “arquiteturas” se confundem a partir de fachadas que se dizem da mesma família, mas que escondem interiores sem nenhum parentesco, afinidade ou coerência arquitetônica. Nós arquitetos, as nossas escolas e todos os órgãos representativos da arquitetura jamais construímos ao nível do nosso público uma imagem da boa arquitetura, de qualidade e de cultura arquitetônica; nunca fizemos chegar ao nosso futuro cliente uma peneira com a qual ele separe o joio do trigo arquitetônico, e muito menos sugerimos à esse público da arquitetura as possibilidades de agregar valores subjetivos ao seu futuro espaço de viver, seu habitat.


Existe uma minoria de residências primorosas saídas das pranchetas de arquitetos competentes que acabam por serem confundidas na paisagem com uma miscelânea babélica resultante de projetos imaturos, infelizes ou equivocados.


Todos perdemos, a cidade, a arquitetura, os bons arquitetos, mas, objetivamente, quem perde é o cliente que não consegue escapar deste labirinto com caminhos duvidosos a escolher.


O cenário urbano resultante é um conflito de oportunidades perdidas.

A minoria urbana de arquitetura relevante e legítima se mistura e quase se perde num contexto bastardo de construções confusas e de arquitetura questionável.


Se salva alguma idéia de qualidade e de ética com uns poucos marcos de coerência arquitetônica, se salva pelo gongo alguma magia e muito pouca poesia.


O sonho pertence a quem habita e não a quem projeta. A questão ética certamente vem a priori, a seguir, a competência, a atenção e o respeito ao cliente.


Estejam atentos e apertem os cintos por que o arquiteto sumiu.


O SONHO PERTENCE A QUEM HABITA E NÃO A QUEM PROJETA...



SAUL VILELA