TROCANDO EM MIÚDOS

A Arquitetura certamente tem um compromisso importante com a emoção e que é num primeiro momento constatado pela estética, porém, o principal compromisso da arquitetura é com a função de seus espaços, com as condições de conforto ambiental que eles geram e também com a subjetividade ou a mágica que pode ser criada. Mais que espaço é preciso projetar o tempo e o devaneio do habitante e dar a ele a sua história de vida ou a história que ele pretende viver.


A arquitetura do século XX passou por uma enevoada mistura de onipotência e impotência, ostensivamente envolvida em modelar o mundo, fazendo com que a coerência imposta na maioria dos projetos fosse geralmente cosmética ou conseqüente da limitação de seus autores. Forma e função são obrigações implícitas no trabalho de qualquer arquiteto e a estética é uma conseqüência imediata de qualquer bom trabalho de arquitetura.


É necessário retirar a arquitetura do mundo das formas e das fotos em que ela se enclausurou e recoloca-la dentro da vida e em função dela, é importante entendê-la como uma luta contra a estetização do mundo, contra o donjuanismo das formas e o egocentrismo narcísico de uma arte repleta de glamour e de sofisticação, mas incapaz de fazer as pessoas habitarem um mundo melhor e mais feliz.


Eu entendo a estética como a ética da forma, e acredito que quando o projeto cumpre sua função, a estética certamente estará preservada e presente como uma conseqüência direta da competência do projeto e do arquiteto.


A beleza é um pré-requisito em uma obra de arquitetura, e o que faz essa obra perdurar no tempo é a visão de todo de quem a projeta. Trocando em miúdos, o arquiteto que atropela a função dos espaços em beneficio da estética é um arquiteto limitado ou um escultor equivocado infiltrado na arquitetura enganando incautos que buscam em um arquiteto a solução de suas questões de habitação ou de usos espaciais.


Os apadrinhamentos e a mídia permitiram, na história do século passado, que arquitetos estetas ou demagogos ou egocêntricos ou inconseqüentes buscassem e obtivessem no aplauso da mídia e no seu tour de force estético, um up grade como Arquitetos maiúsculos e conseqüentemente o aplauso do público leigo, ou, citando Nelson Rodrigues, da unanimidade burra.


Demorei alguns anos para entender essa questão. A entender que a arquitetura e os arquitetos devem mais satisfações à sociedade do que a si mesmos e certamente não é adequado que visem a si mesmos como seu fim, e que ao delinear o espaço do homem a arquitetura se compromete com seu próprio destino e principalmente com a saúde orgânica de toda a sociedade.


Arquitetos têm que, antes de saberem desenhar, serem poetas e terem o que dizer, sempre conscientes de que o sonho pertence a quem habita e não a quem projeta.


Eu acredito na utopia de fazer da arquitetura um instrumento que nos torne melhores, e acredito que se temos um caminho a trilhar com a arquitetura, o destino do nosso desenho certamente é a felicidade do homem.



SAUL VILELA