NADA DE NOVO NO HORIZONTE

A globalização, a mesmice e a pasteurização que fatalmente as acompanha deram o tom da Casa Cor São Paulo 2007, a exemplo do que tem ocorrido com este evento em todo o país. O que se espera e o que deveria acontecer é que o exercício competente da criatividade de nomes e profissionais, âncoras e grifes, da decoração nos brindassem com as surpresas e as diferenças que fazem o encanto e a magia de um evento dessa grandeza.


Lamentavelmente o que se vê é algo muito distante disso, com algumas poucas exceções é frustrante, considerando a expectativa do imenso público que vem de todo o país para admirar, naquele edifício lindo que é a sede do Jockey Clube projetado pelo arquiteto Elisiário Bahiana em 1936, a qualidade dos espaços resultantes do trabalho da nata criativa do país. O que deveria ser a maior festa da criatividade da decoração brasileira é na verdade uma feira de móveis e acabamentos, patrocinada e dominada pelas respectivas indústrias com a complacência dos profissionais que assinam cada espaço com algumas pinceladas na tentativa de gerar com isso algum brilho ou alguma diferença.


Falta empenho, brilho, diferença, motivação, personalidade, casa e “cor”...!


O que salva a mostra é a beleza e a imponência da arquitetura do Edifício sede do Jockey Clube de São Paulo, tornando relevante um evento que não teria essa importância se o palco fosse o Anhembi ou outro espaço semelhante destinado às feiras, às indústrias moveleiras e de materiais de acabamento, levando em conta que o conteúdo exposto cairia muito bem lá...


Esse evento é uma das raras situações em que um arquiteto ou decorador pode fazer exatamente o que ele quer, pode ousar inventar, questionar, afrontar, encantar, é o evento onde ele pode fazer a diferença, colocar seu talento, sua irreverência, sua coragem e sua personalidade profissional na obra, ao contrário de quando é uma obra de um cliente onde você tem que ver a questão dele, respeitar sua cultura, seus sonhos e suas economias.


Não, na Casa Cor você pode tudo, não existem amarras, tem que respeitar exatamente seus próprios sonhos, o que só é possível quando você os tem. Agora, fazer o inverso disso é você pegar esta possibilidade única de despejar seu mundo subjetivo no seu trabalho e transforma-la em um balcão de negócios se curvando à mediocridade de colocar à venda alguns peixes próprios ou alheios e permanecer na mesmice de se acomodar a interesses comerciais menores...


A globalização na arquitetura, na arte e na decoração pulveriza as diferenças, os regionalismos e a cultura e traz consigo a mediocridade. Faz com que as opções de qualidade de vida, de encanto com o trabalho e com a possibilidade de se reinventar um mundo melhor sejam substituídas por questões menores, por objetivos financeiros imediatos, pela razão prática imediatista, abortando qualquer possibilidade subjetiva que busque uma luz no alto dessa babel pseudo estético/criativa.


“ Somente em homens de exceção há agora uma necessidade artística em alto estilo, porque a arte em geral está mais uma vez em retrocesso e por algum tempo as forças e esperanças humanas se voltaram para outras coisas...”Nietzsche, 1896


O diploma de arquitetura nos habilita a fazer de nossa arte um poema através do qual devolvemos a cada um a sua própria história e a história da cultura a qual pertence.


Um “lar” deve ser um cosmos que nos salve do caos frenético que se promove ao nosso redor, e para tornar isto possível é necessário retirarmos a arte, a arquitetura e a decoração do mundo das formas e das fotos em que elas se enclausuraram e recolocá-las dentro da vida e em função dela. Eu ainda acredito na utopia de fazer da arquitetura um instrumento que nos torne melhores e mais felizes.


A globalização na arquitetura, na arte e na decoração pulveriza as diferenças, os regionalismos e a cultura trazendo consigo a mediocridade.



SAUL VILELA