MILÃO, A REVOADA DE ABRIL...

O que existe em comum entre Milão e Belo Horizonte?... não é a cultura, não é o clima, não são os hábitos, não é a bagagem histórica, nem é o poder financeiro. A única coisa que existe em comum entre estas duas cidades são as decoradoras belorizontinas que em Abril voam em bando como as aves que migram pra se acasalar e reproduzir, bem, as aves têm um bom argumento, porém as decoradoras não, elas apenas são maravilhadas com a Feira de Milão como os nossos antepassados índios eram com espelhos, pentes, canivetes e bugigangas em geral, coisas completamente alheias à sua cultura, completamente irrelevantes na suas vidas.


A Feira de Milão era no seu início um evento comercial dirigido aos fabricantes, aos franchaisers, aos comerciantes e lojistas de móveis, sempre foi puramente comercial como um mercado persa, como qualquer feira que divulga e vende produtos. Hoje é tida equivocadamente como uma Meca do Design, como uma fonte de renovação da criatividade, um Nirvana de conhecimentos ou um Pantheon dos deuses da sabedoria estética.


Não é, é apenas uma feira representante da indústria moveleira mais bem equipada em tecnologia de ponta, é a mais rica e tem toda esta importância pelo seu gigantismo e não exatamente pela criatividade ou pela relevância de seu conteúdo, principalmente considerando que o UniVerso da criação no design, na arquitetura e na decoração está ou deveria estar, dirigido às questões culturais, ambientais e principalmente aos arquétipos da estética e das necessidades de cada região e principalmente de seus habitantes.


A trajetória da “evolução” do design nos últimos 60 anos nos garante que ele ainda é um irrequieto herdeiro do modernismo. Muito se evoluiu em tecnologia, porém por mais que se tente ocultar ou ignorar a influencia da Bauhaus, percebe-se sem muito esforço que o furor criativo da grande maioria dos designers sempre recai na velha e boa escola modernista e/ou em alguns mestres contemporâneos dela. Buscando com empenho neste meio século passado muito pouco se encontra que marque época, que seja atemporal e nos remeta aos grandes momentos de mestres como Breuer, Van der Rohe, Aalto, Saarinen, Corbusier, Charlotte Perriand e Eileen Gray. Saboreamos uns poucos bons momentos com a produção posterior de Álvaro Ziza, Phillipe Stark e Gaetano Pesce, com o pop art nos anos 60, com o grupo Memphis e Ettore Sottsass nos anos 80 ou mesmo o minimalismo no final do século passado, porém a enorme produção criativa dos designers dos últimos 30 anos, ou nos remete à Bauhaus ou é irrelevante a nível de descoberta de um novo caminho.


Batalhas e propostas se seguiram desde os anos 80 com dezenas de posturas conceituais entre o que e como criar e produzir o design, como o móvel escultura, o objeto não comercial, o design não industrial, da peça única à produção industrial de nossos dias, desaguando neste século com as insossas propostas da Feira de Milão.


O saldo dessa Babel da criatividade é no mínimo questionável, considerando que o pulsar criativo da quase totalidade dos designers é movido por tendências, modismos, delírios formais ou influencias menores que resultam numa produção sem nenhuma relevância artística ou histórica.


O designer brasileiro, cotado no ranking como um dos mais criativos do planeta, esbarra na enorme defasagem ou ausência de tecnologia e ainda no domínio da mesma no Brasil, ao contrário do designer italiano que, com todas as facilidades, fartura e domínio de tecnologia, esbarra numa produção e num processo criativo autofágico e repetitivo que caminha em círculos, sendo ator de si mesmo num “tour de force, dejá vue”.


O design relevante deve ser centrado na sua questão, função e finalidade, deve ser inovador ao lidar com novas tecnologias, independente de modismos e interprete dos símbolos do seu tempo. “Mais do que ver objetos deve-se vivenciar a história que eles nos propõem”.


Esta questão subjetiva, que envolve o processo criativo de todo designer, todo arquiteto ou decorador, talvez seja o principal caminho a ser perseguido neste horizonte de pobreza estética e de desordem e transição pelo qual passam as artes e a própria consciência coletiva da humanidade.



SAUL VILELA