MICRO TEXTOS

Eu entendo a estética como a ética da forma, e acredito que quando o projeto cumpre sua função, a estética certamente estará preservada e presente como uma conseqüência direta da competência do projeto e do arquiteto.

A beleza é um pré-requisito em uma obra de arquitetura, e o que faz essa obra perdurar no tempo é a visão de todo de quem a projeta.

Eu acredito na utopia de fazer da arquitetura um instrumento que nos torne melhores, e acredito que se temos um caminho a trilhar com ela, o destino do nosso desenho deve ser certamente a felicidade do homem.

A felicidade e a saúde psíquica das pessoas está à mercê das circunstancias. Nosso promissor futuro logo estará pelas costas e os nossos sonhos, aspirações e desejos serão rapidamente transformados em recordações.

Existe uma enorme questão no despertar deste novo século, e ela diz respeito à perda da memória histórica. O futuro das cidades só pode ser construído a partir das relações de seus espaços com sua história

Nossas terras natais estão definitivamente perdidas, as nossas relações com os espaços, com a cidade e com nosso mundo se modificaram e se modificam velozmente e de uma forma determinante.

As ameaças globais que hoje pesam sobre nossas vidas nos tornaram sem dúvida mais solidários e nos deram o sentimento de estarmos a bordo do mesmo barco. É um sentimento totalmente novo o senso de uma dignidade igual para todos os homens. Isto ainda não existia no início do século passado, o que no meu otimismo parece significar a mutação de uma sociedade competitiva se transformando numa sociedade cooperativa.

Poderíamos dizer que o cristianismo não mudou a consciência moral do ocidente considerando que os indivíduos continuam a matar seu semelhante, a roubar e a não respeitar a mulher do vizinho.

Uma das grandes desgraças do nosso século foi ter pretendido realizar algumas utopias da maneira mais científica possível. As cidades radiosas dos arquitetos foram fracassos, as sociedades perfeitas do comunismo falharam.

O século XXI já entendeu que o progresso não é forçosamente contínuo e cumulativo. Pode conhecer fases ascendentes e retrocessos.

O capitalismo trata terrenos, quarteirões, ruas e avenidas como unidades abstratas destinadas à compra e venda, desconsiderando seus usos históricos, as condições topográficas ou principalmente as necessidades sociais.

Devemos entender a Cidade Saturada como uma outra modalidade de poluição ambiental, pois, distorce nossos valores e violenta nosso convívio.

Devemos ter uma visão holística destas questões e correr de encontro ao desenvolvimento sustentável, pois, o drama urbanístico que se anuncia no horizonte deste início de milênio é o indício de uma crise muito mais geral, que põe em risco o futuro da espécie humana no planeta.

É indispensável e urgente um trabalho coletivo em larga escala na ecologia social e na ecologia mental, na relação da cidade com a velhice, com as crianças com os deficientes e com as questões femininas.

Uma experimentação social em grande escala seria um dos poucos meios de sair desta contradição, buscando uma nova ordem subjetiva mutante, como também uma nova poesia ou uma nova arte de viver que poderiam nascer do caos atual de nossas cidades.

A humanidade deverá reinventar o seu futuro urbano, ou ela estará condenada a perecer sob o peso de seu próprio imobilismo, que hoje a ameaça e a torna impotente diante dos imensos desafios com os quais a história a confronta.



SAUL VILELA