A ARQUITETURA NO SÉCULO XX

A arquitetura do século passado passou por uma enevoada mistura de onipotência e impotência estilística. O modernismo eclodiu como uma revolução de mudanças absolutas, uma total ruptura com o passado e a tradição. Trouxe na bagagem grandes pretensões éticas, estéticas e funcionais que consideravam, a princípio, as necessidades básicas da humanidade e que certamente nos conduziriam a um mundo onde seriam satisfeitas as condições fundamentais da existência humana.


Espaços limpos, racionalidade funcional, paredes brancas, grandes panos de vidro, elementos metálicos, brises soleil, transparências etc. Com o andar da carruagem, esta revolução nos revelou uma enorme distancia entre intenção e gesto ao se transformar num instrumento de estetização da arquitetura, limitando-se a delimitar um novo padrão estético de uma modernidade meramente formal.


Foi assim desfeito o sonho de uma arquitetura compromissada com a satisfação das necessidades simbólicas, funcionais e éticas de uma pretensa sociedade emergente. A partir disso, a arquitetura foi destituída do habitante, esvaziada a um nível formal e produzida para o ego de seus criadores e compradores. Nasce aí a arquitetura da mídia, das revistas e exposições, que enterrou até o final do século as pretensões de uma arquitetura para o ser humano, para os habitantes de uma sociedade imaginária, pretensamente melhor e mais feliz.


Como conseqüência imediata desse desencanto e do abandono de qualquer compromisso filosófico, a arquitetura do século XX viveu seu momento lúdico com o pós-moderno, com sua irreverência e irrelevância simbólica, ou seja, a adoção de estilos passados o alheios ao seu momento, ou ainda, seu ecletismo simbólico e formal sem nenhum fundamento palpável. Antes de seu final, o século XX ainda se serviu de outra muleta estilística, o “descontruction” que, apoiado numa base filosoficamente mais sofisticada, nos trazia uma crítica à lógica da razão compositiva moderna, e principalmente à fragilidade e irrelevância simbólica e formal do pós-moderno.


Nesse início de novo século, o saldo dessa intempérie estilística nos remete à velha e consistente filosofia modernista, que alicerçou os primeiros caminhos do modernismo, compromissada com o nascimento de uma nova sociedade, onde o homem é a razão e principal referência para uma nova aventura ética e estética do espaço. Hoje, nos parece certo que, o modernismo do século XX e suas muletas estilísticas, “pós-moderno” e “desconstruction”, foram como uma família em desarmonia, com um filho irreverente e outro revoltado, que tem suas revoluções internas, mas que sempre passam o réveillon juntos, e foi assim que a família modernista chegou ao século XXI, em paz...



SAUL VILELA