A OPÇÃO PELA CASA

Há alguns anos o numero de pessoas que decide vender seus apartamentos e construir uma casa vem aumentando numa velocidade relevante. Existe hoje no ar uma motivação subjetiva que leva pessoas, casais e famílias a buscarem um habitat e uma vida menos comunitária, menos provisória, como é vivendo em um apartamento.


É uma opção por uma moradia mais próxima do sonho, do convívio familiar com encanto, poesia e saúde, além de um certo saudosismo dos jardins, pomares, chuva, sol e paz. Não se concebe hoje criar filhos dentro de apartamentos, com uma visão limitada ou distorcida do convívio com a natureza, distante da liberdade que existiu na nossa infância. No final do século passado, o que induzia a população a esse movimento era a segurança, o medo e a desconfiança da cidade.


A objetividade e a falta de magia do convívio urbano, induzia as famílias a fugir da cidade ou buscar a falsa segurança de um apartamento, mas isso mudou, as pessoas se acostumaram com as cidades e parece que entenderam que tanto a segurança quanto o medo decorrem de questões sociais e políticas como escola, educação, empregos, chances, ofertas e principalmente, sorte, e entenderam que fugir da cidade ou se esconder em um apartamento não resolve nenhuma destas questões, principalmente a de habitar com prazer, poesia e encanto com a vida.


Sendo assim, fica claro que a raiz desse movimento é outra, as pessoas estão entendendo a vida como uma questão de longo prazo, sem o imediatismo e o acovardamento de decisões paliativas, de planos de guerra e defesas sociais, elas não estão brigando contra nenhuma praga urbana ou se defendendo de nada, é um movimento resultante da maturidade, de uma visão de futuro que aposta na felicidade, na saúde mental e social e no crescimento de filhos sem medo da cidade.


A opção é pela privacidade, pelo livre arbítrio de habitar a própria casa, com seus sonhos, robs e manias, não importa se dentro ou fora da cidade, em um bairro urbano ou em um condomínio fechado, cada um com seu estilo, cada classe social no terreno do tamanho do seu bolso, todos perseguem essa idéia de lar, seja pelo velho senso de propriedade, de ser o dono do seu nariz, do seu espaço e, portanto senhor de todas as decisões ali tomadas ou simplesmente pela paz de não estar sujeito a regras e decisões comunitárias, livre da rotina aborrecida dos síndicos, dos custos abusivos dos condomínios, e de ter de partilhar e ou obedecer a decisões mil que regem o dia a dia de todo edifício.


Após trinta anos trabalhando com pessoas e habitações eu entendo essa opção pela casa como um nivelamento em alto nível da consciência social, um entendimento da vida como uma questão vertical que merece opções e decisões verticais, ou seja, é a decisão de não se curvar a questões menores ou temporais, é acreditar que o mundo sempre teve e tem seus ciclos e que questões irrelevantes sempre irão existir.


Portanto, não faz o menor sentido doar a nossa existência a estas questões, pois a nossa existência é criação de uma consciência superior e é para lá que nós devemos direcioná-la. Optar pela casa é dizer não a uma vida provisória dentro de um apartamento, é dizer não aos medos e entender a cidade como uma questão maior independente de sua saúde social e urbana que nos pesa nestes tempos confusos, é colocar a nossa liberdade e o prazer de viver e conviver acima de tudo.


A opção pela casa é um fruto colhido na arvore da maturidade, é uma busca pela felicidade, é acreditar na vida.

SAUL VILELA